(Texto publicado originalmente no periódico online O EstadoRJ, em agosto de 2009.)
O governo brasileiro demonstra preocupação com o alojamento de bases militares norte-americanas na Colômbia devido à falta de esclarecimento, por parte dos Estados Unidos, sobre o objetivo e o alcance de tais instalações. O acontecimento também incomoda outros países da América do Sul, que se reunirão, ainda neste mês de agosto, no âmbito da Cúpula da União das Nações Sul-Americanas (Unasul), convocada por Chile e Brasil para discutir o assunto. A situação relembra os casos de intervenções estadunidenses na América Latina durante a Guerra Fria, finda na década de 1990 com o desmantelamento da União Soviética.
O Brasil deveria se preocupar com assuntos internos de vizinhos? Questões que envolvem países fronteiriços são sempre complicadas. O assessor especial para Assuntos Internacionais da Presidência da República, Marco Aurélio Garcia, após reunião com o general norte-americano James Jones, assessor de segurança da Casa Branca, manifestou receio em relação à proximidade entre as novas bases americano-colombianas e a Amazônia, a qual definiu como região de cobiça internacional. Sim, é possível. Mas o tema desperta, também, outros interesses geopolíticos: hidrocarbonetos.
Os objetivos oficiais da extensão do acordo militar assinado entre Colômbia e Estados Unidos são o combate ao narcotráfico e a desestruturação das guerrilhas de esquerda, como as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e de grupos paramilitares, parâmetros estabelecidos pelo Plano Colômbia, em 2000. Mas, o presidente venezuelano, Hugo Chávez, e o presidente do Equador, Rafael Correa, parecem sentir-se ameaçados com a presença estadunidense na região. O receio de Chávez baseia-se não somente em ameaças, mas em possíveis intervenções além-Colômbia, devido às diferenças ideológicas entre EUA e Venezuela. Além disso, o petróleo venezuelano é responsável por cerca de 14% das importações do produto pelos norte-americanos. Para ele (e para alguns especialistas), referências ao Iraque não seriam mera coincidência.
A reativação da Quarta Frota norte-americana, atuante nas Américas do Sul e Central, constitui outro incômodo aos países sul-americanos. Aparentemente, não haveria motivo para esse tipo de atitude, porque vivemos numa época pós-Guerra Fria, de “pax americana”. Cogitou-se o fato à descoberta de petróleo na camada pré-sal brasileira. Também é possível. Fato inegável tem como referência o fortalecimento da segurança dos EUA. Segundo o cientista político Cesar Guimarães em seu livro “Estados Unidos: Visões Brasileiras”, para os EUA, a segurança global torna-se segurança estadunidense, e as políticas interna e externa se complementam. O objetivo seria fortalecer a própria segurança, revitalizar a economia e promover a democracia no exterior. Dessa forma, os EUA passam a liderar a cooperação com outros países em vez de se isolarem.
A título de curiosidade, uma análise realizada pelo Instituto de Pesquisa Internacional de Paz de Estocolmo (SIPRI), revela que os EUA lideram o ranking de gastos com armamentos, em 2008, com US$ 607 bilhões em despesas, o equivalente a 41,5% dos gastos mundiais com armamentos. Definitivamente, os gastos com o Oriente Médio superam expectativas, mas outras nações sentem-se ameaçadas com esse potencial. É o caso de Venezuela e Equador. Durante a Guerra Fria, os EUA realizaram intervenções na América Latina, inclusive no Brasil, objetivando conter a difusão da ideologia comunista. O fim da bipolaridade EUA-URSS acarretou outros tipos de conflitos relacionados com a globalização: o tráfico de drogas e o crime organizado, o terrorismo, a segurança das fronteiras e as imigrações, entre outros assuntos.
Dessa forma, é de se preocupar a atuação estratégica norte-americana na América do Sul. A instalação de bases militares na Colômbia soa assustadora a repúblicas recém-acostumadas com o fim das intervenções em seus territórios. Além disso, o governo colombiano perde legimitidade e parcela de sua soberania com a interferência estrangeira em parte de seu território. Seria realmente lucrativo para os colombianos o combate ao narcotráfico dessa forma? Pelo que se sabe, em troca do alicerce, o Governo Uribe ganharia tratamento preferencial na compra de armamentos de ponta estadunidenses, além de ajuda financeira para ampliar e modernizar as referidas bases militares. Para os especialistas, uma questão de geopolítica dos EUA. Esperemos os esclarecimentos norte-americanos a respeito.
Alessandra Baldner
O governo brasileiro demonstra preocupação com o alojamento de bases militares norte-americanas na Colômbia devido à falta de esclarecimento, por parte dos Estados Unidos, sobre o objetivo e o alcance de tais instalações. O acontecimento também incomoda outros países da América do Sul, que se reunirão, ainda neste mês de agosto, no âmbito da Cúpula da União das Nações Sul-Americanas (Unasul), convocada por Chile e Brasil para discutir o assunto. A situação relembra os casos de intervenções estadunidenses na América Latina durante a Guerra Fria, finda na década de 1990 com o desmantelamento da União Soviética.
O Brasil deveria se preocupar com assuntos internos de vizinhos? Questões que envolvem países fronteiriços são sempre complicadas. O assessor especial para Assuntos Internacionais da Presidência da República, Marco Aurélio Garcia, após reunião com o general norte-americano James Jones, assessor de segurança da Casa Branca, manifestou receio em relação à proximidade entre as novas bases americano-colombianas e a Amazônia, a qual definiu como região de cobiça internacional. Sim, é possível. Mas o tema desperta, também, outros interesses geopolíticos: hidrocarbonetos.
Os objetivos oficiais da extensão do acordo militar assinado entre Colômbia e Estados Unidos são o combate ao narcotráfico e a desestruturação das guerrilhas de esquerda, como as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e de grupos paramilitares, parâmetros estabelecidos pelo Plano Colômbia, em 2000. Mas, o presidente venezuelano, Hugo Chávez, e o presidente do Equador, Rafael Correa, parecem sentir-se ameaçados com a presença estadunidense na região. O receio de Chávez baseia-se não somente em ameaças, mas em possíveis intervenções além-Colômbia, devido às diferenças ideológicas entre EUA e Venezuela. Além disso, o petróleo venezuelano é responsável por cerca de 14% das importações do produto pelos norte-americanos. Para ele (e para alguns especialistas), referências ao Iraque não seriam mera coincidência.
A reativação da Quarta Frota norte-americana, atuante nas Américas do Sul e Central, constitui outro incômodo aos países sul-americanos. Aparentemente, não haveria motivo para esse tipo de atitude, porque vivemos numa época pós-Guerra Fria, de “pax americana”. Cogitou-se o fato à descoberta de petróleo na camada pré-sal brasileira. Também é possível. Fato inegável tem como referência o fortalecimento da segurança dos EUA. Segundo o cientista político Cesar Guimarães em seu livro “Estados Unidos: Visões Brasileiras”, para os EUA, a segurança global torna-se segurança estadunidense, e as políticas interna e externa se complementam. O objetivo seria fortalecer a própria segurança, revitalizar a economia e promover a democracia no exterior. Dessa forma, os EUA passam a liderar a cooperação com outros países em vez de se isolarem.
A título de curiosidade, uma análise realizada pelo Instituto de Pesquisa Internacional de Paz de Estocolmo (SIPRI), revela que os EUA lideram o ranking de gastos com armamentos, em 2008, com US$ 607 bilhões em despesas, o equivalente a 41,5% dos gastos mundiais com armamentos. Definitivamente, os gastos com o Oriente Médio superam expectativas, mas outras nações sentem-se ameaçadas com esse potencial. É o caso de Venezuela e Equador. Durante a Guerra Fria, os EUA realizaram intervenções na América Latina, inclusive no Brasil, objetivando conter a difusão da ideologia comunista. O fim da bipolaridade EUA-URSS acarretou outros tipos de conflitos relacionados com a globalização: o tráfico de drogas e o crime organizado, o terrorismo, a segurança das fronteiras e as imigrações, entre outros assuntos.
Dessa forma, é de se preocupar a atuação estratégica norte-americana na América do Sul. A instalação de bases militares na Colômbia soa assustadora a repúblicas recém-acostumadas com o fim das intervenções em seus territórios. Além disso, o governo colombiano perde legimitidade e parcela de sua soberania com a interferência estrangeira em parte de seu território. Seria realmente lucrativo para os colombianos o combate ao narcotráfico dessa forma? Pelo que se sabe, em troca do alicerce, o Governo Uribe ganharia tratamento preferencial na compra de armamentos de ponta estadunidenses, além de ajuda financeira para ampliar e modernizar as referidas bases militares. Para os especialistas, uma questão de geopolítica dos EUA. Esperemos os esclarecimentos norte-americanos a respeito.
Alessandra Baldner
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