A China produz muito e consome pouco. Já os Estados Unidos consomem muito e produzem pouco, necessitando importar grande parte dos bens utilizados. As duas maiores economias do mundo se enfrentam em uma guerra cambial que parece monopolizar a atenção da mídia internacional, principalmente nesse momento em que o G20 financeiro aprovou maior poder aos emergentes no FMI, refletindo importante mudança do poder econômico no cenário mundial. Como isso afeta o Brasil e os outros países?
A China utiliza o sistema de câmbio fixo e mantém sua moeda, o Yuan, desvalorizado, visando a aumentar as exportações e, consequentemente seu crescimento econômico. No longo prazo, essa prática de aceleração de crescimento desestabiliza o sistema, prejudicando relações econômicas com terceiros países, e se torna insustentável para o restante da economia mundial. Uma situação realmente preocupante. Esse foi um fato que dificultou a entrada da República Popular da China na Organização Mundial do Comércio (OMC) e seu reconhecimento como economia de mercado.
Os Estados Unidos recentemente anunciaram a recompra de títulos de sua dívida pública, o que despejaria mais dólares no mercado internacional, fazendo com que essa moeda se desvalorizasse. No bom português, se a ação se concretizar, o dólar ficará mais barato, a dívida pública externa norte-americana será desvalorizada e as reservas internacionais dos outros países perderão valor. Essa é uma das razões pelas quais a China, a maior detentora de títulos da dívida norte-americana, não se desfez dos papeis: os próprios chineses perderiam dinheiro e competitividade com o excesso de dólares no mercado internacional, tornando uma política como essa um ato de autoflagelação ou até mesmo um suicídio econômico.
Assim, o problema reside no fato de a moeda norte-americana ser a referência para transações comerciais e financeiras no comércio internacional. Ao desvalorizar sua moeda, os EUA, facilitam a exportação de seus produtos, conforme a China o faz, mas mantendo o câmbio flutuante, diferentemente dos chineses. Dessa forma, constitui-se uma “guerra cambial” entre os dois países, que afeta o restante do mundo.
A origem da necessidade da desvalorização do dólar reside no enfraquecimento da economia norte-americana após o estouro da bolha imobiliária e a consequente crise financeira de 2008. Desde então, os EUA fazem de tudo para estimular os bancos a realizarem empréstimos visando à normalização do crédito; a China desvaloriza o Yuan artificialmente para crescer mais rapidamente em função das exportações. No caso do Brasil, assim como no restante do mundo, a desvalorização do dólar acarreta a valorização de moedas nacionais. Dessa forma, fica mais barato importar bens e exportadores são prejudicados. A balança comercial pode se desestabilizar, tornando-se negativa. Caem as reservas internacionais dos países.
Sem exportar, numa economia aberta ao capital internacional, os países não crescem e os produtos nacionais ficam mais caros, quebrando várias cadeias produtivas. Consequentemente, os países tendem a se abrir à especulação financeira internacional, visando a investimentos externos diretos, que remetem à vulnerabilidade econômica e tendência ao desemprego. Por isso, a guerra cambial se tornou assunto tão sério. Infelizmente, não se chegou a consenso na reunião do G20 financeiro na Coreia do Sul. Mas, com o poder conferido aos emergentes no FMI, a situação ainda poderá ser revertida por meio de pressão internacional. Resta-nos esperar o resultado.
Alessandra Baldner
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