A Argentina perdeu, recentemente, Néstor Kirchner, primeiro secretário-geral da União Sul-Americana de Nações (Unasul), ex-presidente argentino e líder do Peronismo. As principais preocupações políticas no país vizinho são, atualmente, a sucessão dentro do movimento peronista e o desempenho da viúva Cristina na presidência sem o apoio do marido. Além disso, a oposição parece sentir-se desorientada com a morte de Kirchner, que teve papel essencial na recuperação da economia daquele país. Nesse cenário político, resta saber como ficarão as relações Brasil-Argentina daqui em diante.
Argentina e Brasil constituem-se como as duas maiores economias do Mercosul e, apesar de protagonizarem disputas comerciais que pareciam enfraquecer o bloco, desempenham papel crucial ao cooperar para fortalecer a integração mercosulina e a sul-americana. Em meio a uma relação de altos e baixos com o Brasil, Néstor Kirchner era grato pela ajuda brasileira durante a crise argentina do início da década de 2000, que aumentou as importações de produtos portenhos e agiu em prol da renegociação da dívida externa daquele país com o Fundo Monetário Internacional (FMI).
No entanto, Kirchner, assim como o povo argentino hoje o faz, costumava demonstrar ressentimento quanto ao protagonismo do Brasil na região. Como exemplo, pode-se citar o posicionamento contra a candidatura brasileira a um assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas (ONU), argumentando que o Brasil não poderia representar sozinho a América Latina, tendo que se revezar com a Argentina. A política externa de Kirchner para o Brasil foi menos agressiva que a de seus antecessores e a de sua viúva, Cristina, que atualmente tenta bloquear importações brasileiras sem obter sucesso com essa iniciativa.
Percebe-se que, com a morte de Néstor Kirchner, Cristina provavelmente tentará demonstrar uma atuação independente da de seu marido e guia político, tomando uma atitude mais agressiva comercialmente em relação ao Brasil. Dessa forma, poderia manter uma coesão interna ao criar o “inimigo comum”, como já feito por Kirchner no passado em relação aos Estados Unidos e ao FMI. Um outro cenário possível seria o estreitamento de laços comerciais e políticos com o Brasil, objetivando crescimento conjunto e política de segurança no âmbito do Mercosul e da integração sul-americana.
A economia argentina cresce rapidamente, mas há inflação e as bases econômicas ainda são frágeis, devido à crise. Nessas perspectivas, resta saber qual papel será o escolhido por Cristina. Ela, certamente, terá apoio brasileiro para favorecer a economia argentina, afinal de contas, precisamos de parceiros fortes no Mercosul. Dessa forma, manteremos um bloco economicamente fortalecido e democracias estáveis na região, conforme as diretrizes do Itamaraty, com o objetivo de assegurar a harmonia política e comercial nos países com os quais temos fronteiras, e maior segurança na região ao reduzir a possibilidade de golpes de Estado, da migração ilegal em massa de regionais para o nosso território, e da presença do narcotráfico no Brasil.
Alessandra Baldner
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