(texto originalmente publicado pelo periódico online O Estado RJ, em novembro de 2009.)
Ao assumir o poder na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) em 1985, Mikhail Gorbatchov inicia as reformas que levariam ao fim o bloco comunista: a Glasnost (“transparência”), que visava à diminuição da censura, e a Perestroika (“reestruturação”), um conjunto de reparos na economia, prejudicada por décadas de burocracia e de corrupção. O consequente enfraquecimento da URSS proporcionou o reaparecimento dos nacionalismos no Leste Europeu, e os conflitos étnicos, antes contidos pela Potência Comunista, ressurgiram a partir da desagregação do bloco, provocando vários anseios separatistas. Mas o que a Alemanha tem a ver com isso?
Após a Segunda Guerra Mundial, os vencedores (Estados Unidos, França, Grã-Bretanha e URSS) dividiram a Alemanha em República Democrática Alemã (RDA), sob regime comunista, e República Federal da Alemanha (RFA), administrada sob regime capitalista. O muro entre os dois territórios foi construído em 1961 e foi derrubado 28 anos depois. No auge da Guerra Fria, a divisória simbolizou a separação do mundo entre Leste e Oeste, entre comunistas e capitalistas. O desmantelamento político e econômico da antiga União Soviética resultou no início de uma nova era de globalização econômica e na unificação do país dividido por duas ideologias.
Certamente a Alemanha mudou muito desde a queda do muro. A RFA investira nas bases do que hoje conhecemos como União Européia e a Alemanha tornou-se uma potência econômica, que atualmente suporta grande parte das despesas do bloco juntamente com a França. A unificação agregou a parte menos economicamente desenvolvida, a antiga RDA, ao restante do Estado e os alemães ocidentais pagaram por isso: impostos para sustentar o lado mais necessitado, principalmente na área da saúde. Hoje, o território incorporado ainda precisa se desenvolver: as antigas regiões dominadas pela URSS apresentam o dobro de desempregados em relação aos outros territórios, renda per capita equivalente a 70% dos estados ocidentais e migração em massa da mão-de-obra jovem.
Com relação aos outros países do Leste Europeu, a retomada econômica, contudo, não foi tão lenta quanto se imaginava. Em entrevista à rede britânica BBC, o diretor do Instituto da Economia Alemã, Michael Hüther, afirmou que os estados do leste alemão precisam de pelo menos mais dez anos para lograr desenvolvimento econômico comparável às outras regiões do país. No entanto, há quem tenha se desenvolvido com a incorporação ao lado ocidental. Leipzig, capital cultural e econômica da antiga RFA, por exemplo, cresceu com a mão-de-obra barata e, consequentemente, com a instalação de empresas como DHL, BMW e Porsche.
Apesar da defasagem econômica em relação aos estados da antiga RDA, o lado incorporado tende a melhorar paulatinamente. A mão-de-obra barata e a ampliação do turismo local devem contribuir para o incremento da economia na região. No entanto, um problema real é a massa de jovens migrantes, mesmo com a injeção financeira de quase um trilhão e meio de euros nos últimos vinte anos. A unificação da Alemanha saiu cara e o lado mais rico ainda está pagando a conta de anos de estagflação. Mas ninguém disse que sairia barato.
Alessandra Baldner
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